Bem
Casa de interpretação | TEMP 2 & EP 3
Olá, meus amigos! Saudações de uma mente ansiosa :)
Sejam bem-vindos à mais uma temporada da série “Casa de interpretação”, edição Chapéu de Palha. Hoje vamos seguir com a terceira faixa do EP: “Bem” - meu primeiro contato com a dupla!
“Eu”, lançado em dezembro de 2019, é um EP estúdio dos artistas Helder e Giovanna, os dois nascidos e criados em Manaus. Uma discografia cheia de profundidade, com sinceridade e altruísmo, esse álbum é pura bondade. Espero que te toque e te inspire assim como ele fez comigo.Essa série tem intuito de trazer uma nova interpretação sobre músicas, álbuns e artistas e ter uma troca com vocês. Caso queira alguma música ou artista específico, é só me falar :)
Se tu me visse como eu vejo tu, meu bem
Eu ficaria bem, tu ficaria bem
Se eu me espalhasse em ti como tu fez em mim
Não ia fazer mal, não ia fazer mal a ninguém
Eu acredito numa teoria que se chama “A teoria do espelhado”. Quando gostamos de alguém, queremos passar boa parte do tempo com ela. Queremos conhecê-la melhor, destrinchar hábitos e pegar suas manias. Aos poucos, com a proximidade, nos tornamos um espelho dela. Deixamos que a pessoa tome posse de parte do que você é, porque isso é intimidade. Quando o narrador diz que gostaria que o outro se espelhasse, é como se ele suplicasse um pedido para que o amor se torne recíproco, para que o outro esteja apaixonado.
Tudo em volta tem um pouco
Do pouco que eu tenho de ti
No meu quarto, teu cheiro, tu esqueceu aqui
E na tua falta me resta solidão
Esses dois primeiros versos me enchem de significado. O espelhado molda seu ambiente quando ama e, aos arredores, isso também capta seu efeito. Quando perdemos alguém que nutrimos um vínculo sincero, a saudade aperta porque é o único meio que nossa consciência consegue encontrar aconchego na dor. E como são profundas as relações humanas, não é? A gente sente a outra pessoa em seus sentidos, em objetos e até em cores. Isso tudo porque deixamos ser espelhados.
Se os meus olhos te cantassem como cantam os teus
Eu ficaria bem, tu ficaria bem
Essa mania de querer o que eu não posso ter
Talvez só uma vez eu deva esquecer
“Se você pudesse me ver da forma como eu te vejo…” Isso virou uma chavinha na minha cabeça. Constantemente observo o quanto eu me saboto na tentativa de fazer meu espírito sofrer. Porque eu acredito na crença de que só assim eu cresço. Em sua raiz etimológica, a palavra “bem” vem do latim bene e significa de modo feliz e útil, realizado. O bem que essa pessoa quer é o que ela não pode ter da forma que deseja. Essa frustração irrita e concede a ela a única forma de se ver livre: Deixar ir.
E essas fotos que carregam alguns sonhos meus
Pesam no meu coração vazio
Essa mania de lembrar do que nunca foi meu
Talvez só uma vez eu deva esquecer
Nessa estrofe, ela carrega o mesmo sentimento de finalidade. A primeira frase, na minha primícia ao ouvir ela, me trouxe um sentimento de nostalgia e amadurecimento. É como se a pessoa revisitasse uma memória guardada e, ao desengavetá-la, abrisse a uma verdadeira caixa de Pandora, com todos os “por que?” e “e se?”. Esse amor que ele visita é algo que ele gostaria que tivesse sido mais concreto, mais palpável e mais tangível. Infelizmente ficou apenas no desejo. E isso é o que machuca mais: O que poderíamos ter sido?
A música vai se repetindo e chega ao fim. “Bem” é visto pelos meus olhos como um pilar na vida de uma pessoa que precisa deixar ir. Precisa crescer e racionalizar que toda a sensibilidade virou uma promessa violada, algo que não chegou a ser concedido. De forma cinematográfica, gosto de imaginar que o narrador se apaixonou na infância por essa pessoa, mas não era recíproco. Conforme a vida adulta foi chegando, esse sentimento deixou de ser prioridade e ele precisou ir embora. Ao voltar, olhando retratos e lembranças, se imaginou no contexto desse bem realmente ter chegado a acontecer. Como seria feliz. Mas, de fato, ele não nunca seria a mesma pessoa de antes, amadurecida e sensível, como ele se tornou hoje.
Há muita beleza e severa intimidade com despedidas e desconhecidos.
Dedicado àquele momento em que você decide ver álbum de fotos antigas e pensa em tudo que já aconteceu e poderia acontecer. Saudade e futuro.
Beatriz :)

